Céu cinza e a bela impressão de que o mundo já ficou pra trás, tecnológica e socialmente. Nada parece comprometer mais o vôo do que os prédios e arranha-céus que crescem à medida em que o pássaro de ferro desce, os carrinhos tornam-se carrões, quisera eu também que as pequenas pessoas cresçam, tornando-se do tamanho de seus sonhos e ambições, mas não importa, basta que as garras finquem o chão e que eu possa mostrar aos prédios que eles são os gigantes e eu sou o pequeno, mantenedor de segredos, devaneios e sonhos. Hoje já não sabem o que vale mais, uma multidão unida, uma dupla de artistas, um único sonho ou uma única força? E nesse pensamento sigo pelas ruas, prudente e indiscreto, encarando os falsos gigantes como eu, cara-a-cara, sem pensar se os meus sonhos e desejos são maiores do que o dos meus companheiros de castigo.
Caminho passo-a-passo, pensando como (pros)seguir, em que esquinas virar, se piso ou não em um desnível para firmar mais o pé, controlado por uma mente insegura que reconhece um lugar, mas não conhece a metade do mesmo e com isso, passa a duvidar sobre sua própria localização.
Após passos, despesas e acertos, encontro-me em um quarto. Conforto para dois, caixa mágica brilhando e emitindo sons, água quente para cessar o frio causado pela máquina que expira gelo e que não liga para seu estado emocional. Tudo ali, em seu devido lugar, esperando por ações valiosas e ações que, apesar de não parecerem, também são valiosas. Pedir um pouco mais de conforto exigirá algo que talvez faça falta, nessa necessidade, sigo quieto, calmo, constante e deitado, olhando para o teto e pensando o que seria de mim se estivesse em outro lugar agora, com um abraço, um beijo ou com um roxo na cara, de tanto julgar verdades e (estupidamente) recolher conseqüências das quais eu já não deveria mais me preocupar.
Não que o ambiente não seja confortante, é tudo uma questão de carma, acredita? Eu sim, e olho para as quatro paredes claras, secas e frias a procura de respostas para as perguntas que eu já nem sei formular com a mesma clareza que evito que invada pelos olhos do ambiente, mantendo suas pálpebras fechadas, evitando raios alheios e nocivos.
Aos poucos adormeço, no meu breve conforto, escutando vozes e suspiros internos, trazendo notas e melodias para meu apreço… só vejo as notas se acalmarem quando resolvo olhar para fora de mim e, resolvendo expulsar os demônios que -aos poucos- tentavam acalmar o meu espírito bom, com devaneios religiosos e palavras de consagração num quebra cabeça sem encaixes funcionais.
Assim segue minha noite, o bem revelando o mau e relevando o que procura se manter são o suficiente para que eu permaneça reconhecível, em sintonia com o temporal de emoções que eu mesmo posso provocar.
Pablo Emílio de Mattos
Alguém viu o Goethe por aí? o.O
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