Correnteza

Posted by | Posted in Conto | Posted on 14-01-2010

É como se uma onda fosse me atingir pelas costas em uma praia de água tão azul quanto o céu dos filmes infantis. A areia, de tão clara, faz meus olhos se apertarem buscando um foco confortável o suficiente para conseguir identificar os pontos coloridos que me instigam. A água, salgada, bate na ferida do antebraço direito que insiste em arder, mesmo após um dia. No fundo, as algas parecem mãos a me agarrar os pés que insistem em ficar. Aumento a força, começo a caminhar: quanto mais ando, mais água eu vejo. Quanto mais percebo, mais estou a afundar.

Escuto vozes e não consigo entender. Parecem ser de uma língua desconhecida. Afinal, o que está acontecendo? O constante som do mar já não me deixa ouvir bem o mundo lá fora, as algas -junto a meus pés- estão cada vez mais fundas e o sal da água parece ter entrado em minha corrente sangüínea, queimando meu braço cada vez mais. Não sei se o choro que escorre pelo meu rosto adianta algo, mas prova que estou desesperado por dentro por mais que não consiga me  debater e ter força o suficiente para sair daqui.

Todas as ações me levaram a esse estado e já nem posso mais nadar,

agora só preciso prender a respiração e seguir para onde essa correnteza me levar.

Pablo Emílio de Mattos

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[dentro de mim]

Posted by | Posted in Conto, Fragmentos | Posted on 11-01-2010

A saudade não tem hora mesmo pra chegar. Estava eu, parado, sentindo o mundo atuar ao meu redor enquanto você insistia em dançar dentro de mim. Seu corpo que se movia lentamente dentro do meu peito, em silêncio. Como pode dançar sem som? Que ritmo (per)segue assim? Teus lisos cabelos morenos estão perfeitamente atrasados com teus passos e se movem em frações de segundos atrás de ti, tenho certeza que teus olhos os atraem.
Teus olhos, bailarinos castanhos procurando por sentido, por amor… Janelas d’alma é clichê demais para eles, eternos brilhantes e encantadores olhos. Fazem dançar junto de ti, entrar no seu ritmo, criar música onde não existe som algum.
Faz-me acender um holofote acima de ti, para que possa mostrar ainda mais a tua beleza para mim, tornando o meu peito, uma sinfonia de desejos.
Morena, a saudade é um vício que me persegue e que insisto em querer matar em teus olhos, insisto em matar em teu rosto, sua boca. A saudade faz-te dançar dentro de mim, me arrancar do mundo como em um sonho bom.Seus passos, seus fios de cabelo, seus olhos fazem criar vida, em mim.

Desejo que dance sempre [dentro de mim].

Pablo Emílio de Mattos

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Nosso jogo

Posted by | Posted in Conto, Música | Posted on 13-12-2009

Na noite, uma simples memória do que é sono e a música alta que dá ânimo para continuar mais um texto, mais um relato sobre o que é o desespero e suas vertentes como a raiva ou o peito acelerado quando se pensa em estar longe de quem se ama(…):

“Dá mais cartas, baixa a luz e vem esquecer o amor”

Não importa se você já não escuta mais a minha voz. Gosto de saber que faço parte da tua vida, mesmo que distante, mesmo que você se sinta sozinho demais sem um contato meu. Finjo que não vou me importar mais: digo-lhe que a chuva continuará a cair, o sol continuará a nos queimar e continuaremos a remar nossas vidas nesse lago turvo. Para você, morri. Para mim, você vive no meu desgosto que gosto tanto, mesmo que eu demonstre apenas a insatisfação, a incapacidade de não conseguir te amar, de não conseguir te seguir por águas tão iguais e imensuráveis. Vá me perder, vá me largar aos poucos…

Texto – Pablo Emílio de Mattos

Incentivo – Tiago Bettencourt & Mantha – O Jogo

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Uma sexta sem cigarros

Posted by | Posted in Conto | Posted on 07-07-2009

Lá vai o transeunte a guiar-se pelos seus molhados passos bêbados. Nada o acalma mais do que a o asfalto que se move por debaixo de seus sapatos engraxados. Louco e triste, pensa apenas se conseguirá chegar bem ao seu lar, destino final, no qual poderá relaxar, fumar seu cigarro sem pensar mais nela como uma pessoa que vai deixar saudades. Em um campo de futebol, em margem a uma pequena pista, o lento e agonizador bêbado já não consegue mais avistar todos os obstáculos a sua frente, tropeçando e indo de cara a grama molhada. Sentindo o cheiro forte da grama amassada e molhada, ele fecha os olhos lentamente por instantes, em frações de segundo (para um sóbrio, 3 minutos) lembra de todas as tardes sentado ali, com a sua última amante, aquela em que permaneceria fielmente apaixonado, querendo suas mãos quentes por perto e, ao acordar e voltar a alcóolica realidade, levanta-se cambaleando e ainda sentindo aquele cheiro de passado feliz, que infelizmente não se repetirá.
Ao chegar em seu lar, admira como as chaves cresceram e não encontram o buraco no tambor da fechadura. Fazendo muito barulho e pouco se importando com isso, já que agora voltara a sua origem extremamente só, o pensar coletivo realmente não importava. Ao finalmente encaixar, sorri e gira a chave com uma força descomunal, como se descontasse a raiva de não ter feito o que era certo, por não ter sangrado o suficiente para ser feliz e, principalmente, por escolher a extrema delicadez, sofrerá com a mais penosa solidão.

Ao entrar, fita o sofá com um desejo importuno de poder ter algo confortável que o segurasse, e pouco se importando com os recaltados sapatos novos, retira-os apoiando o calcanhar no pé, facilitando para poder retirar os sapatos sem nem desamarrar os cadarços. Nada valia mais do que poder descansar os pés que pareciam inchados demais para aquela forma. Com as pernas bambas por necessitar de um apoio no qual ele sabe que não existe, o caminho de cruzar a sala para chegar ao sofá torna-se um final de maratona, com sol a pino, asfalto quente e sem pessoas simpáticas e esforçadas para entregar copos d´água no meio do caminho.
Rompe-se a fita branca e o “quase ninguém” deita com a cabeça em um dos braços do sofá, acendendo o abajur posto em uma mesa ao lado.
Conforme suas retinas se ajustam lentamente para enxergar meio ao único foco de luz, o ninguém percebe a falta de sua carteira de cigarro, e lembra-se que antes de sair tinha botado na bolsa de sua amante. Levando as duas mãos ao rosto já cansado, aperta forte para sentir se tudo aquilo que está a passar é realmente verdade, afinal, o que será de um pobre apaixonado, que está solteiro e sem cigarros numa sexta-feira a noite?

Apenas o resto da vida.

(Pablo Emílio de Mattos)

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Contratempos

Posted by | Posted in Conto | Posted on 17-04-2009

Na seguida e decadente descida do mundo, sigo minha vida, passo após passo, pensando não apenas em não pisar nos próprios cadarços, mas também seguir sem pisar em cadarços ou correntes alheias. Tudo tem sido assim, contratempos de decisões, contra tempos em que era costumeiro demais falhar e ver o chão de perto.

(Pablo Emílio de Mattos)

adoro fragmentos… e vocês?

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Round My Hometown

Posted by | Posted in Conto | Posted on 01-03-2009

Primeira nota:

Um corpo, uma só fonte de calor e a certeza do destino. Nada se contrai mais em palavras e expressões internas do que ele a cruzar (subterrâneamente) a avenida que liga duas asas, sem destino, viradas para um rumo sem sentido de se ter como rumo. Os pés pretos caminham em passos curtos e rápidos em busca do destino seguro, e em seu caminho, reconhecem vários andares, vários modos de se chegar a um ponto crucial, de se deixar levar a carteira e o que tem para manter um hálito saudável. Altoids no bolso, Tottenham no ouvido e a breve sensação de ser maior do que deveria.

A desenvoltura do desenvolvimento:

As preocupações na cabeça, a chatisse absurda de querer gritar, de querer brigar, de querer ser o refúgio único para um só alguém. O olhar aponta para os homens que lavam a escada às 22:47 sem pretensões instantâneas. Era apenas aquilo, lavar as escadas do metrô enquanto eu passo em conflito interno, com as mãos tremendo esperando pelo calor habitual do lar que não quero ficar até o meu momento derradeiro.
Eles lavam as escadas cantando sobre a Lapa e eu as subo gritando pra dentro como Tottenham é bonita e como eu queria explodir sem ninguém notar; explodir e me posicionar em cada constelação, em cada estrela, para que os  romancistas conflituosos, como eu, possam olhar e sentir-se um pouco mais aliviados. E nisso tudo, eles lavam as escadas…

O último acorde:

Em destino final, acrescento-me a idéia de que posso ser sim maior, mesmo com minhas angústias e meus pesares extremamente pesados (desculpe). Agora só resta saber se toda guerra que explode em mim resulta em romances divididos por três partes ridículas, ou se enquanto eu explodo em amor, ciúme, raiva, tristeza, alegria e satisfação, aqueles malditos continuam a lavar as escadas.

deus, seja mais humano e menos medíocre retirando os degraus, ou fazendo com que eu assuma a posição de lavar os degraus às 10 da noite.

(Pablo Emílio de Mattos) assumindo o cargo de maldito

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FOME

Posted by | Posted in Conto | Posted on 09-02-2009

Sinto falta daqueles versos bobos e infantis que escrevia. Todos buscando uma rima fácil, um acorde punk e um teor de amor inestimável. Sinto falta da poesia que me assustava, os versos fortes, gritados como em um hardcore que me faziam sentir raiva de quem os escreveu. Sinto falta daquelas poucas palavras que me acalmavam, dos bancos, dos gramados, de toda a síntese guardada em uma amizade fugaz, ou em um amor tenaz que percorria minha corrente sangüínea a procura de consagração pessoal e sexual.
Talvez a falta que bate em mim, não seja tão grande para ser chamada de nostalgia, talvez o sono que eu perco pensando nos tempos que passaram, não é nada mais que uma tentativa de poder lembrar mais do próprio passado, apagado em versos, apagado nas palavras e, simbólicamente, apagado na vida. Talvez a minha fome não seja pelos pratos que comi, seu conteúdo, seu peso, mas sim pelas sensações que ele me causou como seu cheiro, sua temperatura, seu gosto descendo amargo por dentro de mim.
A fome não é por passado, é por reconhecimento e (cada vez mais) admiração.

Pablo Emílio de Mattos

- faminto por realização.

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Devaneio Cotidiano

Posted by | Posted in Conto | Posted on 02-02-2009

Céu cinza e a bela impressão de que o mundo já ficou pra trás, tecnológica e socialmente. Nada parece comprometer mais o vôo do que os prédios e arranha-céus que crescem à medida em que o pássaro de ferro desce, os carrinhos tornam-se carrões, quisera eu também que as pequenas pessoas cresçam, tornando-se do tamanho de seus sonhos e ambições, mas não importa, basta que as garras finquem o chão e que eu possa mostrar aos prédios que eles são os gigantes e eu sou o pequeno, mantenedor de segredos, devaneios e sonhos. Hoje já não sabem o que vale mais, uma multidão unida, uma dupla de artistas, um único sonho ou uma única força?  E nesse pensamento sigo pelas ruas, prudente e indiscreto, encarando os falsos gigantes como eu, cara-a-cara, sem pensar se os meus sonhos e desejos são maiores do que o dos meus companheiros de castigo.
Caminho passo-a-passo, pensando como (pros)seguir, em que esquinas virar, se piso ou não em um desnível para firmar mais o pé, controlado por uma mente insegura que reconhece um lugar, mas não conhece a metade do mesmo e com isso, passa a duvidar sobre sua própria localização.
Após passos, despesas e acertos, encontro-me em um quarto. Conforto para dois, caixa mágica brilhando e emitindo sons, água quente para cessar o frio causado pela máquina que expira gelo e que não liga para seu estado emocional. Tudo ali, em seu devido lugar, esperando por ações valiosas e ações que, apesar de não parecerem, também são valiosas. Pedir um pouco mais de conforto exigirá algo que talvez faça falta, nessa necessidade, sigo quieto, calmo, constante e deitado, olhando para o teto e pensando o que seria de mim se estivesse em outro lugar agora, com um abraço, um beijo ou  com um roxo na cara, de tanto julgar verdades e (estupidamente) recolher conseqüências das quais eu já não deveria mais me preocupar.
Não que o ambiente não seja confortante, é tudo uma questão de carma, acredita? Eu sim, e olho para as quatro paredes claras, secas e frias a procura de respostas para as perguntas que eu já nem sei formular com a mesma clareza que evito que invada pelos olhos do ambiente, mantendo suas pálpebras fechadas, evitando raios alheios e nocivos.
Aos poucos adormeço, no meu breve conforto, escutando vozes e suspiros internos, trazendo notas e melodias para meu apreço… só vejo as notas se acalmarem quando resolvo olhar para fora de mim e, resolvendo expulsar os demônios que -aos poucos- tentavam acalmar o meu espírito bom, com devaneios religiosos e palavras de consagração num quebra cabeça sem encaixes funcionais.
Assim segue minha noite, o bem revelando o mau e relevando o que procura se manter são o suficiente para que eu permaneça reconhecível, em sintonia com o temporal de emoções que eu mesmo posso provocar.

Pablo Emílio de Mattos

Alguém viu o Goethe por aí? o.O

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Não adianta

Posted by | Posted in Conto, Devaneios | Posted on 15-01-2009

De nada vale rezar e pedir aquele gostinho bom de novo amor ou chocolate quente confortando no frio. Nada vai trazer o primeiro olhar, o primeiro gole e, mesmo se deus resolvesse nos surpreender empiricamente, o que sobraria ainda seria a saudade do segundo primeiro olhar e do segundo gole confortante.

Pensar em normas para reconstruir 3% de uma relação que pode ter sido boa em algum sentido, só nos torna menos vivos, pensando no chão pisado, enquanto andamos com medo o suficiente para apenas olhar para baixo fitando pedras e desníveis que possam no máximo, fazer os nossos joelhos falhos ralarem e arderem por 5 minutos. Basta a vida para fazer arder por dentro; os medos e normas, fazem-nos olhar pro chão e perder aquilo que devíamos agradecer todos os dias: o céu, seja ele nublado ou azul, como nos sonhos e desenhos infantis. Talvez precisamos de mais cor, mais sangue arterial, mais cérebro descansado, menos deus, menos chão…
Pablo Emílio de Mattos

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Dois caminhos

Posted by | Posted in Conto | Posted on 22-12-2008

Com o tempo as risadas se dividem, as piadas saem do plural e você percebe que não é bom nisso, que sua memória é fraca demais para decorá-las. Os pares unem-se tanto que tornam-se únicos, números, solitários números. As parcerias no dia-a-dia correm demais, muitas acabam indo em sentido oposto. As quatro mãos literárias somem de foco, já não existem mais planos, não existem devaneios, folhas, canetas e documentos compartilhados. A troca de poemas, de micro-contos intimistas somem, arquivam-se em intimidades que ninguém mais pode tocar, um dia vão empoeirar e virar apenas mais uma história, de como poderíamos ter, poeticamente, um ao lado do outro.
Com o tempo, percebe-se que sua vida tomou um dos dois caminhos, o solitário e o completo.


Pablo Emílio de Mattos

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