Tirando a poeira

Nesses últimos meses andei em parafuso. Foram muitas coisas, muitos atos, poucas promessas e, principalmente, muitas emoções. Um corpo hipertenso, uma mente perdida em vários momentos, e observações de vontades se esvaindo no simples dia-a-dia.

Muitas vezes não sei o que fazer: minha mente trabalha em 220v e meu corpo em 110v. Preciso de mais ar, mais calma, mais reflexão e espaço. E nem sempre eu consigo, admito. Preciso de mais dinheiro, de mais estudo e de mais cuidado. Devo conseguir, eu luto. Preciso de menos atos, menos promessas e, sempre,  preciso de mais ar. Estou caminhando.

Essas idas e voltas me fazem pensar que o mundo é um lugar bem estranho. Vontades são tomadas por atos de desespero, que incentivam o bizarro e cruel costume de se deixar levar.

Estou voltando. Com mais ar:

Sempre sonhou que poderia buscar mais do que vê. Nunca pensou que esse sonho, poderia se tornar uma simples frustração. Pudera, na linha dos olhos, só se via desafetos e contradições. Melhor pensar no que é de bem para não deixar que o sonho doce, vire uma sedutora e real maldição. Um (doce) sonho de cada vez.

Correnteza

É como se uma onda fosse me atingir pelas costas em uma praia de água tão azul quanto o céu dos filmes infantis. A areia, de tão clara, faz meus olhos se apertarem buscando um foco confortável o suficiente para conseguir identificar os pontos coloridos que me instigam. A água, salgada, bate na ferida do antebraço direito que insiste em arder, mesmo após um dia. No fundo, as algas parecem mãos a me agarrar os pés que insistem em ficar. Aumento a força, começo a caminhar: quanto mais ando, mais água eu vejo. Quanto mais percebo, mais estou a afundar.

Escuto vozes e não consigo entender. Parecem ser de uma língua desconhecida. Afinal, o que está acontecendo? O constante som do mar já não me deixa ouvir bem o mundo lá fora, as algas -junto a meus pés- estão cada vez mais fundas e o sal da água parece ter entrado em minha corrente sangüínea, queimando meu braço cada vez mais. Não sei se o choro que escorre pelo meu rosto adianta algo, mas prova que estou desesperado por dentro por mais que não consiga me  debater e ter força o suficiente para sair daqui.

Todas as ações me levaram a esse estado e já nem posso mais nadar,

agora só preciso prender a respiração e seguir para onde essa correnteza me levar.

Pablo Emílio de Mattos