Uma sexta sem cigarros

Lá vai o transeunte a guiar-se pelos seus molhados passos bêbados. Nada o acalma mais do que a o asfalto que se move por debaixo de seus sapatos engraxados. Louco e triste, pensa apenas se conseguirá chegar bem ao seu lar, destino final, no qual poderá relaxar, fumar seu cigarro sem pensar mais nela como uma pessoa que vai deixar saudades. Em um campo de futebol, em margem a uma pequena pista, o lento e agonizador bêbado já não consegue mais avistar todos os obstáculos a sua frente, tropeçando e indo de cara a grama molhada. Sentindo o cheiro forte da grama amassada e molhada, ele fecha os olhos lentamente por instantes, em frações de segundo (para um sóbrio, 3 minutos) lembra de todas as tardes sentado ali, com a sua última amante, aquela em que permaneceria fielmente apaixonado, querendo suas mãos quentes por perto e, ao acordar e voltar a alcóolica realidade, levanta-se cambaleando e ainda sentindo aquele cheiro de passado feliz, que infelizmente não se repetirá.
Ao chegar em seu lar, admira como as chaves cresceram e não encontram o buraco no tambor da fechadura. Fazendo muito barulho e pouco se importando com isso, já que agora voltara a sua origem extremamente só, o pensar coletivo realmente não importava. Ao finalmente encaixar, sorri e gira a chave com uma força descomunal, como se descontasse a raiva de não ter feito o que era certo, por não ter sangrado o suficiente para ser feliz e, principalmente, por escolher a extrema delicadez, sofrerá com a mais penosa solidão.

Ao entrar, fita o sofá com um desejo importuno de poder ter algo confortável que o segurasse, e pouco se importando com os recaltados sapatos novos, retira-os apoiando o calcanhar no pé, facilitando para poder retirar os sapatos sem nem desamarrar os cadarços. Nada valia mais do que poder descansar os pés que pareciam inchados demais para aquela forma. Com as pernas bambas por necessitar de um apoio no qual ele sabe que não existe, o caminho de cruzar a sala para chegar ao sofá torna-se um final de maratona, com sol a pino, asfalto quente e sem pessoas simpáticas e esforçadas para entregar copos d´água no meio do caminho.
Rompe-se a fita branca e o “quase ninguém” deita com a cabeça em um dos braços do sofá, acendendo o abajur posto em uma mesa ao lado.
Conforme suas retinas se ajustam lentamente para enxergar meio ao único foco de luz, o ninguém percebe a falta de sua carteira de cigarro, e lembra-se que antes de sair tinha botado na bolsa de sua amante. Levando as duas mãos ao rosto já cansado, aperta forte para sentir se tudo aquilo que está a passar é realmente verdade, afinal, o que será de um pobre apaixonado, que está solteiro e sem cigarros numa sexta-feira a noite?

Apenas o resto da vida.

(Pablo Emílio de Mattos)

Novo.

Essas ondas de renovações me atingiram e a vítima foi esse fraco blog. Como podem ver, a tendência aqui agora é menos fru-fru e mais texto. Novidade mesmo é o sistema de comentários, que tá mais interativo e o sistema de busca que eu deixei de boicotar dessa vez. Resolvi deixar tudo aqui, mas agora quem busca são vocês, usuários. Nada de sugestões de posts, nada de categorias, tags rodando, nada… O lance aqui é literatura.

Pra combater a falta de fru-frus, tem muito conteúdo legal chegando, preparem as idéias.

Abraços

o beijo

O beijo é uma conversa, se você não sabe falar (nem mesmo sozinho), desculpa amigo… você não sabe beijar!

Beijar bem não é apenas uma questão de ter uma boca quente, macia, carnuda ou fina, é necessário se expressar, é necessário saber construir o beijo assim como é construído um texto: com ritmo, com boas ações, com o timing da situação que não vem de você, virá sempre (repito: SEMPRE) do parceiro(a).
Quando eu falar que é uma conversa, esqueça os debates, lembre-se da arte da dialética mas não leve ao pé da letra, por favor. Lembre-se dos sussuros mais doces, das vozes que vieram até perto dos seus tímpanos e tornaram sílabas em seda, acentos em devaneios que arrepiam, elevam a alma e o bem querer torna-se querer muito e bem. E nessa dialética dos sussuros, o barulho externo já pouco importa, um escuta o outro por dentro, sentindo o calor dos lábios, a emoção posta através do movimento das línguas é sábio, é honesto e consegue trazer toda emoção e sentimentos para aquele beijo, deixando passar desapercebido os carros ao redor, os aviões que sobrevoam destino ao aeroporto mais próximo. As luzes tornam-se desnecessárias, o beijo comove e cria um holofote por dentro de nós, iluminando apenas o que existe de bom para o momento. Não basta saber andar, falar ou ser romântico, amigo. É preciso saber beijar e entender que a síntese mais perfeita do amor é o beijo.

(Pablo Emílio de Mattos)

Inspirado no melhor beijo do mundo. O da minha Luna, é claro.