Correnteza

Posted by | Posted in Conto | Posted on 14-01-2010

É como se uma onda fosse me atingir pelas costas em uma praia de água tão azul quanto o céu dos filmes infantis. A areia, de tão clara, faz meus olhos se apertarem buscando um foco confortável o suficiente para conseguir identificar os pontos coloridos que me instigam. A água, salgada, bate na ferida do antebraço direito que insiste em arder, mesmo após um dia. No fundo, as algas parecem mãos a me agarrar os pés que insistem em ficar. Aumento a força, começo a caminhar: quanto mais ando, mais água eu vejo. Quanto mais percebo, mais estou a afundar.

Escuto vozes e não consigo entender. Parecem ser de uma língua desconhecida. Afinal, o que está acontecendo? O constante som do mar já não me deixa ouvir bem o mundo lá fora, as algas -junto a meus pés- estão cada vez mais fundas e o sal da água parece ter entrado em minha corrente sangüínea, queimando meu braço cada vez mais. Não sei se o choro que escorre pelo meu rosto adianta algo, mas prova que estou desesperado por dentro por mais que não consiga me  debater e ter força o suficiente para sair daqui.

Todas as ações me levaram a esse estado e já nem posso mais nadar,

agora só preciso prender a respiração e seguir para onde essa correnteza me levar.

Pablo Emílio de Mattos

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