Talvez incerteza

Postado por | Conto | Em 18-07-2008

Com o frio seco do início do segundo semestre em Brasília e o nervosismo de não conseguir afastar o mal de quem não o merece, surge uma agonia que faz os pés e as mãos tremerem junto com o peito, que começa a latejar devagar, pulsando sensações ruins e repetindo-as várias vezes. Com o medo de uma reação mais séria, a cama parece o melhor caminho.
O corpo deitado tentando se esquentar, lembra contente como já havia acontecido em outra ocasião, no mesmo lugar com a sua linda amada nua. Agora o corpo luta sem o lindo par de seios quentes para esquentarem o seu peito. A melhor saída é um grosso edredom de solteiro, enquanto o frio assola toda a casa. Os pés esfregam forte no colchão, buscando apenas atrito e calor. Aos poucos o corpo corresponde a necessidade de se manter quente, a dor parece inimiga distante e a sensação de conforto e calma tomam conta aos poucos. A respiração mais serena e imperceptível ao corpo que antes chorava, dita o compasso de uma melodia calma que exalta olhares e suspiros alheios.
Agora vem a preocupação com o mundo, a incerteza se a porta está realmente trancada torna-se um desafio para qualquer mente. Fechar os olhos para o atual, seguir minutos e, talvez, horas atrás da imagem e da certeza de que realmente virou as chaves e que a segurança é real. A imagem não vem, a incerteza é mais real e fica o combate entre largar o calor e o conforto em troca da -suposta- segurança. Que peso vale mais a pena, ter uma boa noite de descanso e sossego ou passar por sensações chatas outra vez em troca de certezas e possíveis correções?
A mente não pára de pensar e os olhos já não sabem pra onde seguir, a visão cada vez mais turva e o mundo mais distante, revelam o cansaço e o sono que chegaram de vez e acabam dominando. O corpo que doeu, pensou e sofreu não aguentou mais e dormiu. A incerteza foi um quinhão que adormeceu e ninguém mais sentiu falta: nem a mente e nem o corpo quente.

A porta está trancada.

(Pablo Emílio) de Mattos

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