Uma sexta sem cigarros
Postado por | Conto | Em 07-07-2009
Lá vai o transeunte a guiar-se pelos seus molhados passos bêbados. Nada o acalma mais do que a o asfalto que se move por debaixo de seus sapatos engraxados. Louco e triste, pensa apenas se conseguirá chegar bem ao seu lar, destino final, no qual poderá relaxar, fumar seu cigarro sem pensar mais nela como uma pessoa que vai deixar saudades. Em um campo de futebol, em margem a uma pequena pista, o lento e agonizador bêbado já não consegue mais avistar todos os obstáculos a sua frente, tropeçando e indo de cara a grama molhada. Sentindo o cheiro forte da grama amassada e molhada, ele fecha os olhos lentamente por instantes, em frações de segundo (para um sóbrio, 3 minutos) lembra de todas as tardes sentado ali, com a sua última amante, aquela em que permaneceria fielmente apaixonado, querendo suas mãos quentes por perto e, ao acordar e voltar a alcóolica realidade, levanta-se cambaleando e ainda sentindo aquele cheiro de passado feliz, que infelizmente não se repetirá.
Ao chegar em seu lar, admira como as chaves cresceram e não encontram o buraco no tambor da fechadura. Fazendo muito barulho e pouco se importando com isso, já que agora voltara a sua origem extremamente só, o pensar coletivo realmente não importava. Ao finalmente encaixar, sorri e gira a chave com uma força descomunal, como se descontasse a raiva de não ter feito o que era certo, por não ter sangrado o suficiente para ser feliz e, principalmente, por escolher a extrema delicadez, sofrerá com a mais penosa solidão.
Ao entrar, fita o sofá com um desejo importuno de poder ter algo confortável que o segurasse, e pouco se importando com os recaltados sapatos novos, retira-os apoiando o calcanhar no pé, facilitando para poder retirar os sapatos sem nem desamarrar os cadarços. Nada valia mais do que poder descansar os pés que pareciam inchados demais para aquela forma. Com as pernas bambas por necessitar de um apoio no qual ele sabe que não existe, o caminho de cruzar a sala para chegar ao sofá torna-se um final de maratona, com sol a pino, asfalto quente e sem pessoas simpáticas e esforçadas para entregar copos d´água no meio do caminho.
Rompe-se a fita branca e o “quase ninguém” deita com a cabeça em um dos braços do sofá, acendendo o abajur posto em uma mesa ao lado.
Conforme suas retinas se ajustam lentamente para enxergar meio ao único foco de luz, o ninguém percebe a falta de sua carteira de cigarro, e lembra-se que antes de sair tinha botado na bolsa de sua amante. Levando as duas mãos ao rosto já cansado, aperta forte para sentir se tudo aquilo que está a passar é realmente verdade, afinal, o que será de um pobre apaixonado, que está solteiro e sem cigarros numa sexta-feira a noite?
Apenas o resto da vida.
(Pablo Emílio de Mattos)
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Viva a literatura na internet.

Uma noite sem cigarros é de derrubar qualquer caído.
Como sempre…. só posso dizer que eu adooorooo viajar lendo os textos do Pablo…. —=ADORO=—
Confesso que passo aqui frequentemente, ansiosa, esperando ler alguma coisa do que você tanto produz. Curiosidade talvez seja pouco, mas a espera não para. Espero que você também não, continue nos mostrando tudo isso que tem em você!